domingo, 6 de julho de 2014

Tento Dormir #3

Parte 1: aqui
Parte 2: aqui
A primeira vista, achei que estava vazia. Eu estava deitado no chão, achei que tinha acordado de um sonho. Levantei-me soltando um longo bocejo e não encontrei Hermes comigo ou algum sinal do que havia passado. Decidi andar um pouco até que uma menina passou correndo e por pouco não fico no caminho dela, pareceu não ter me notado. Quando fui lhe chamar, uma mulher um pouco menor que eu, atravessou meu corpo em direção a ela, com seus longos cabelos castanhos-claro que deixava um perfume suave por onde passava. Segui as duas até chegar a uma peça cor-de-rosa, deveria ser o quarto da criança. Eu estava curioso para saber quem era esta menina no colo da Joana.
“Filha sua que não é.” Hermes apareceu escorado na parede, ao lado da porta como se estivesse lendo meu pensamento. “Quer dizer que a Joana é mãe? Mas seriam necessários uns dez anos para ter uma filha como ela.” Isso era demais para a minha cabeça, fiquei pensando há quanto tempo eu estava morto, mas o que incomodava mesmo, era a possibilidade da Joana estar com outra pessoa.
— Marcus, o tempo é relativo entre os planos. Realmente, na terra passaram-se alguns anos, embora para você, tenha sido algumas horas. Ela tem uma família agora e esta é sua filha, acho que você conhecerá o pai mais adiante.  — Ele dizia isso com um tom de casualidade que me deixava muito perturbado. Queria entender o motivo disso tudo.
Nós víamos as duas brincando, e meus olhos mais uma vez se enchendo de lágrimas. “Eu o trouxe aqui para que veja esta cena, ela está feliz como se estivesse com você. Não para jogar na sua cara, mas para que entenda, não existe um único amor destinado para cada pessoa.” Era isso que Hermes queria passar para mim, segundo ele, era necessário para eu seguir em frente. Eu decidi me aproximar. Sentei-me ao seu lado na cama, enquanto ela brincava com a sua filha, chamei o seu nome várias vezes, Joana...
— O que foi, mamãe? — perguntou a filha ao perceber a sua reação logo após eu te-la chamado.
Ela parecia estar me ouvindo. Eu gritava ao seu lado, “Estou aqui, Joana! Fale comigo!” A tristeza escureceu o seu rosto, a brincadeira havia encerrado, ela disse à sua filha que estava cansada e iria para seu quarto, a menina assentiu, um pouco decepcionada, mas avistou suas bonecas no outro lado do quarto e seguiu a brincadeira com elas.
“Eu queria que você entendesse isso.” Hermes, que não havia se manifestado até Joana ir embora, entrou no quarto sorrindo para a menina. “Este apego que você tem, Marcus, também aprisiona ela. A sua morte nunca será superada completamente se você não deixar este mundo por completo. Se ama mesmo a Joana, deve deixar ela viver em paz.”


“Está bem, o que devo fazer?” Agora eu estava em prantos, eu sentia que havia perdido tudo, acho que é essa sensação de estar morto. O quarto em que estávamos, repentinamente começou a se desmoronar, as paredes explodiam para longe e o chão quebrava-se em pedaços até a escuridão deixar-nos suspenso no vazio. Procurei por Hermes, mas não havia mais nada. Minhas extremidades lentamente desfragmentavam-se até que nada havia sobrado.
“Vamos prosseguir para a próxima etapa.” A voz de Hermes havia cortado o silêncio. Luzes acima de mim foram se acendendo. Uma sala branca era iluminada por elas. Eu estava sentado novamente em frente a mesa, mas quem me encarava era ela, Joana. Ela sorria gentilmente, era como se tudo ficasse bem, mesmo que não estivesse.
“Desculpe-me por tudo, Joana. Eu tenho tanto sentimento guardado por você e acho que a culpa jamais irá deixa-los livres. Mas eu quero que você seja feliz, não importa com quem você esteja, desde que esta pessoa te mereça.” Era difícil eu colocar tudo para fora, sentia uma pressão enorme no peito. Ela se levantou e veio em minha direção, senti seus lábios quentes sobre os meus, se um beijo fosse capaz de dizer alguma coisa, este seria de adeus. Ela olhou fitou-me com seus olhos castanhos, mas havia algo de diferente neles.
— Adeus, guarde-me com carinho nas suas lembranças.  — Tentei convencer-me disso, mas sabia que não conseguiria enganar ninguém por aqui. Alguma coisa dentro de mim partia, mas eu e Hermes ainda tínhamos muito caminho a percorrer. Esse vínculo não seria quebrado de uma vez, mas sim por cada passo dado, que dessa vez seriam para longe dela. Acho que a eternidade será a minha nova companheira.


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