domingo, 22 de agosto de 2021

Diálogos com a minha Consciência #1

 Hoje eu sonhei com a minha Consciência. Ela apareceu para mim em forma de uma mulher e conversamos. Eu fiz muitas perguntas, algumas eu obtive o seu silêncio como resposta, outras foram respondidas com outras perguntas.

- Você é um espírito ou a minha consciência?

- Por que não os dois?

Curiosamente, já há alguns dias que vinha namorando a ideia de escrever os meus pensamentos. Ao mesmo tempo, eu hesitava em escrevê-los apenas em um arquivo de texto e deixá-los escondidos em qualquer canto do meu computador. Eu sentia falta de escrever em uma plataforma online.

Quando eu faço uma postagem, é como se tivesse um compromisso a mais com a escrita. Além disso, eu me comprometo escrever "bem" tanto para mim, quanto para você. Esse compromisso me ajuda a lidar com tudo que me impede de transmitir os meus pensamentos em palavras.

Eu tenho muito receio de escrever. Eu criei barreiras mentais que dificultam expressar em texto o que eu quero dizer. Poderia dizer que sofro de Timidez Literária. 

A timidez é um mal que vem roubando o melhor de mim há anos. Essa luta entre eu e ela parece que está longe de terminar. Eu já a eliminei de diversas áreas da minha vida, mas sempre sobra algo dela que rasteja para outros cantos da minha mente. Lugares que temo e evito explorar. Onde há escuridão, ela encontra refúgio. 

E cresce.

Até que não caber mais naquele escombro. Até ficar difícil de não a notar. E se eu não a encarar de volta, ela fica mais forte.

Hoje é mais um dia para lutar. E eu escolhi dar um passo a mais em direção a escuridão. A Timidez me encara de longe, mas o seu olhar petrificante parece estar a um palmo do meu rosto. Eu sinto as minhas pernas fracas, o meu coração palpitar, um aperto no peito.

Hoje não vai ser o dia que eu vou te derrotar, mas vai ser mais um dia que me aproximo de fazê-lo. Eu não vou desistir.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Ela


Ela apareceu, simplesmente. Sem introduções ou apresentações, apenas estava lá, ao meu lado. Impaciente como eu, azarada como eu, esperando para pegar sua bebida. Não lembro como nem quando – infelizmente, eu estava bêbado – começamos a conversar. Seu cabelo era loiro ou branco? Ou será que era um lilás claro? Droga. E se não fosse pela bebida, provavelmente eu não seria tão sociável para falar com ela. Ou dançar.

Não lembro como viemos parar aqui embaixo, mas lembro bem do seu sorriso e do quão silenciosa ela era em um lugar tão barulhento. Ela não se preocupava em falar alto mesmo quando eu dizia que não tinha entendido. Tudo bem, eu gostava do seu rosto perto do meu e não queria que saísse de perto.

A cerveja pode tornar algumas pessoas violentas, ou até apagar a memória de quem bebe em excesso, mas diante de todas as desventuras que poderiam ocorrer naquela noite, a loteria do álcool tornou-me sociável, extrovertido, bem-humorado, alguém melhor do que eu sou. Se alguém como ela investia seu tempo para estar ao meu lado, alguma coisa eu estava fazendo certo, só não lembro o quê.

Nos beijamos, não uma vez, mas duas. A primeira vez aconteceu como ela havia surgido: simplesmente aconteceu. Um beijo longo, o universo unira duas bocas que se encaixavam, não era um beijo descoordenado, cada lábio buscava o que o outro oferecia, as línguas dançavam no ritmo da música, sem invadir a boca ou ficarem escondidas, os dentes nunca se chocaram. O beijo veio na mesma velocidade que se foi, como se nunca tivesse acontecido, exceto pelo meu coração agitado. Tinha a mesma sensação de quando um carro bate em algum objeto imóvel, fazendo com que o motorista salte para frente. Meu coração era um motorista bêbado e sem cinto de segurança.

Depois de um tempo que parecia ter sido uma eternidade, nos beijamos de novo, dessa vez, nossos olhos se encontraram e quebraram a tendência do corpo permanecer imóvel, era uma força externa que ambos foram atingidos. Ela pegou meus braços, e sem parar de me beijar, levou-me até a parede, onde nossos corpos se pressionavam intensamente. Mesmo no calor do momento, minha mente se permitia a questionar a sua veracidade, se em algum instante, eu não acordaria na minha cama - ou na dela - sonhando mais uma vez que o acaso teria me presenteado, quebrando toda a maré de azar que inunda minha vida desde que me conheço por gente. Mas era real, era excitante e eu não queria que acabasse.

O fim da noite chegou, e mais uma vez eu não havia colocado o cinto, nem estava preparado para se acidentar. Alguém a puxa pelo braço. Era sua amiga dizendo que estava na hora de ir. Ela desejou tudo de bom para mim, como se soubesse tudo da minha vida atualmente, mesmo não lembrando de ter lhe contado. E do mesmo jeito como nos conhecemos, ela se foi. Simplesmente se foi. Sem a promessa de se ver mais uma vez, nem que fosse para ficarmos horas na fila da cerveja em um lugar qualquer. Eu, com meu carro destruído e minha a cabeça atravessada no vidro, quase a beijar a parede em que eu havia batido, fiquei lá, tentando processar tudo o que havia acontecido e foi quando concluí: a falsa esperança de as coisas iriam melhorar, o breve sentimento de ser salvo do fundo do poço, era tudo uma piada. Eu era a piada. O azar havia pregado sua melhor peça em mim.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Café Gelado

Levou a xícara de café até sua boca, queimando sua língua pela terceira vez. A dor ajudava a esquecer por um instante a discussão que havia começado pela manhã, mas seria necessário perder o paladar de vez para conseguir mais alguns minutos de fuga. Era tudo sua culpa. Não por causa das acusações que ela jogava contra, mas por ter permitido que as coisas chegassem a esse ponto, mas havia aprendido a sua lição. Já era hora dos caminhos se separarem e assim nunca mais ver o rosto dela.

Um copo fora arremessado contra seu rosto e uma poça de sangue misturada com estilhaços de vidro se formava aos pés da cadeira. Não era a primeira vez que seus impulsos fugiam do controle, e quanto mais o tempo passava, pior ficava. Já havia levado um tapa na cara, mas ela estava bêbada, ele se justificava sempre que aquela lembrança lhe acertava como uma ferroada. Chantagens emocionais eram frequentes quando era contrariada, e ele relevava. Entretanto, sua paciência já havia se esgotado e seu corpo transpirava revolta, mas deixou no chão seu orgulho junto com o que sobrou do copo, pois sabia que estava sendo humilhado pela última vez. Levantou-se da cadeira e passou por cima dos cacos, o som do vidro arranhando o piso sempre o incomodava, mas não dessa vez, era como música para os seus ouvidos. 

O caminho até seu quarto era decorado por flores de plástico que ela trocava a cada estação, fotos de viagens e datas especiais que passaram juntos e um papel de parede que sempre detestou. No chão, havia um trajeto de diversas coisas jogadas que levavam ao final do corredor, ele ignorou os obstáculos até acabar tropeçando em um porta retrato. Levou a mão trêmula sobre e suspirou por um instante. Era dele e de sua ex-namorada, ambos sorrindo como se fossem parte de algum comercial americano. Lentamente, os dedos soltaram e a foto caiu virada para baixo.

Sua mala, já pronta, era pequena, embora ainda houvesse muito espaço a ser preenchido. Queria levar apenas o que não lembrava dela, e isso se resumia em algumas camisetas de banda, jeans e um iPod com rock dos anos 80: tudo o que havia comprado com seu dinheiro no tempo em que morava com seus pais.

Mudar-se para capital era sempre tudo o que queria, mas morar com ela, acabou sendo necessário para garantir sua estadia na cidade. Culpava-se por talvez ter acelerado as coisas, teria sido ela um monstro que ele mesmo havia criado? Por um instante, hesitou em colocar no bolso seu celular e carteira. Nunca passara por sua cabeça o quão resolvida uma pessoa deve estar para entrar na vida de alguém, não parecia para ele ser novidade quando esse pensamento passou pela sua cabeça. Tanta gente acha que sabe muito, mas pouco fazem o que sabem. Ele não era diferente, contudo, ela não mudaria. Não por ele, nem por ninguém. Na sua visão, estava certa, e sempre estaria.

Os gritos se aproximavam do quarto seguidos de ameaça, sua cabeça voltou a latejar. Não esperou ela entrar para atravessar a porta a passos largos.

Ao botar os pés para fora de casa, um vento quente bateu em seu rosto anunciando a chuva que estava por vir. Sentiu-se 5 anos mais jovem quando abriu sua mala e pela primeira vez depois de ter se mudado, não carregava um guarda-chuva que ela sempre escondia dentro da sua mochila. Um sofá no apartamento de um velho amigo o esperava, poderia ficar lá o tempo que quisesse, desde que ajudasse nas contas. Ele morava a alguns quarteirões de distância que dava uma boa caminhada pelo centro.

Passou em frente a uma antiga loja de conveniência onde costumava comprar cigarros para sua mãe. No lugar dela, havia uma cafeteria e se questionou por não saber quando havia sido construída. Foi caminhando cada vez mais devagar, até parar e dar meia volta, sem tirar os olhos da placa que saltava para metade da calçada. Era mais uma Starbucks com suas inúmeras opções de cafés caros, havia uma poltrona próxima a janela que mostrava o transito em fúria como um filme passando numa enorme tela sem volume. Dizem que não há local mais seguro para estar que no olho de um furacão, e olhando para fora, imerso nos acolchoados, ele sentia estar em um.
Sacou o iPod do seu bolso e deu play na primeira música que surgiu. Ao som de Whitesnake, decidiu pegar um café.

Here I go again on my own....
Going down to the only road I've ever known...


A terceira vez que a atendente falou, já irritada, fez com que ele tirasse os fones de ouvido. Seu modo de dar sermão, toda aquela agressividade por causa da sua falta de atenção era familiar. Se fechasse os olhos, imaginaria sua ex-namorada brigando, mais uma vez. Pegou seu café preto o mais rápido que pôde, cruzou reto pela sua confortável poltrona e foi embora prometendo não voltar mais lá. Sua língua ainda estava áspera, quase sem paladar, e quando levou o café até sua boca, mudou de ideia. Pela primeira vez em tanto tempo, preferiu deixar esfriar.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

"Oi."

Sua cabeça passava por um turbilhão de memórias enquanto atravessava o mar de gente no centro da cidade. Era um empurra-empurra que não atrapalhava seu raciocínio, estava acostumado a se refugiar na sua mente quando a realidade não lhe agradava. Andando sem rumo, pensava em todas as oportunidades que havia perdido por alguma razão: aquele emprego que devia ter se empenhado mais, aquele beijo nunca dado por conta de sua timidez, a troca de olhares que daria início a uma conversa, a lista segue. Era uma coleção de fracassos que não cabia em uma só vida.

"Pois de agora em diante vai ser diferente. Vou viver cada momento como se fosse o último."

Chegara a um grande cruzamento, onde os automóveis seguiam fluxos violentos ao som de buzinas e freadas. Parou instintivamente quando uma moto quase passara por cima do seu pé. Do outro lado, uma moça de olhos arregalados por baixo de sua franja o encarava. Pensava se este rapaz era um suicida em potencial, e então sorriu para ele quando decidiu que não era.
Ele deu um sorriso meio sem jeito de volta, coçando a nuca. O sinal estava verde para eles. A maré de pessoas jogou os dois para a mesma direção sem se perderem de vista. Pensava consigo o quão perturbador estava sendo a encarar por todo esse tempo. Desviou o olhar rapidamente depois de ter recebido um empurrão de alguém que passara com pressa e quando retomou sua posição, ela estava apenas a alguns passos, ainda notando sua existência.

"Fala com ela, cara." Era o que sua mente repetia até não conseguir mais ouvir qualquer coisa que não fosse sua ansiedade se manifestando. Franziu os lábios. Piscou forte, os segundos viraram minutos, os minutos, uma eternidade. Ele paralisou, ela agiu.

"Oi."

Mas quando deu por conta, já estava na outra esquina e deixara ela apenas com um olá de quem responde apenas por reflexo. Deu de ombros quando a viu sumindo pela multidão, o mar urbano afastou-os na mesma velocidade que os unira, e antes que sua mente voltasse a divagar, parou de súbito, como uma pedra repartindo a correnteza. Estava prestes a acrescentar mais um momento à sua lista, mais um fracasso, mas antes que concluísse seu raciocínio, suspirou aliviado.


"Fiz minha parte."

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Atrasado



Quem foi melhorar a vida
e a transformou em uma corrida?

Que faz o tempo cobrar caro da gente
quando o deixamos passar
e tira o sossego de quem é manso
brutalmente, começa a ansiar

O verão é apenas um instante
O inverno se arrasta sem pressa
e antes que tente andar depressa
a felicidade ficou mais adiante.

domingo, 24 de agosto de 2014

Monstros

O medo o impedia de escrever. Voltar a abraçar a caneta com os dedos sob o caderno já deixava seu coração acelerado, seu medo era de despertar monstros que por um tempo haviam deixado de importuná-lo. Pelo menos era o que ele achava. Algumas madrugadas atrás, seus olhos saltavam para fora de sua face e miravam a escrivaninha no canto do quarto. A mão tremia e suava frio, mas sempre se virava para a parede, ficando de costas para tudo que pudesse despertá-los mais uma vez.

Na quinta madrugada, estava tão quente que a mente alternava entre sonhos e realidade. Havia desistido de dormir na quarta vez que seu sono se fora, eram três da manhã e o canto do quarto nunca esteve tão escuro quanto agora. Sem pensar duas vezes, levantou-se de sua cama, ligou o abajur e pegou a primeira caneta e caderno que estavam a sua frente.

Por um momento, nada aconteceu.



Foi riscando a caneta pelo papel que sua confiança aumentava, não tinha o que escrever, ele concluiu. “Ufa.”, escapou do seu pensamento.  Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, seguido de uma gota de suor escorrendo pela sua testa, mas seu alivio foi tão breve quanto uma chuva de verão. Como uma avalanche, os monstros desceram da sua mente percorrendo o seu pescoço, depois o ombro e braço, mal tinha espaço na caneta para sair todos de uma vez.

Seu braço se movia freneticamente sobre o caderno, as palavras eram marcadas com tanta agressividade que as folhas embaixo ficavam escritas com a mesma pressão. Ele não queria experimentar tais sentimentos, mas era tão libertador retornar aos velhos hábitos como um alcoólatra experimentando a bebida depois anos.

Depois de escrito, os monstros que não conseguiram sair retornavam para sua mente, cabisbaixos, porém cheios de rancor, preparando-se para a próxima investida, multiplicando-se como ratos.  Era só uma questão de tempo para que ele retornasse à sua escrivaninha porque, no final das contas, sempre gostou disso.


domingo, 3 de agosto de 2014

O tempo que se foi



Saudades do tempo que se foi
como a areia que se escapa pelos dedos
da vida mal vivida
de tanto fugir dos medos

Não há para quem se revoltar
se todos tentam o impossível
agarrar o momento ao máximo possível
apenas lágrimas para se compartilhar,
mas um dia terei a coragem
de desafiar Deus e sua divindade.
Já que sua imortalidade é o preço
da humanidade, eu encerro esta trama
porque do tempo que se foi, eu mereço
apenas a saudade de quem me ama.