quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Café Gelado

Levou a xícara de café até sua boca, queimando sua língua pela terceira vez. A dor ajudava a esquecer por um instante a discussão que havia começado pela manhã, mas seria necessário perder o paladar de vez para conseguir mais alguns minutos de fuga. Era tudo sua culpa. Não por causa das acusações que ela jogava contra, mas por ter permitido que as coisas chegassem a esse ponto, mas havia aprendido a sua lição. Já era hora dos caminhos se separarem e assim nunca mais ver o rosto dela.

Um copo fora arremessado contra seu rosto e uma poça de sangue misturada com estilhaços de vidro se formava aos pés da cadeira. Não era a primeira vez que seus impulsos fugiam do controle, e quanto mais o tempo passava, pior ficava. Já havia levado um tapa na cara, mas ela estava bêbada, ele se justificava sempre que aquela lembrança lhe acertava como uma ferroada. Chantagens emocionais eram frequentes quando era contrariada, e ele relevava. Entretanto, sua paciência já havia se esgotado e seu corpo transpirava revolta, mas deixou no chão seu orgulho junto com o que sobrou do copo, pois sabia que estava sendo humilhado pela última vez. Levantou-se da cadeira e passou por cima dos cacos, o som do vidro arranhando o piso sempre o incomodava, mas não dessa vez, era como música para os seus ouvidos. 

O caminho até seu quarto era decorado por flores de plástico que ela trocava a cada estação, fotos de viagens e datas especiais que passaram juntos e um papel de parede que sempre detestou. No chão, havia um trajeto de diversas coisas jogadas que levavam ao final do corredor, ele ignorou os obstáculos até acabar tropeçando em um porta retrato. Levou a mão trêmula sobre e suspirou por um instante. Era dele e de sua ex-namorada, ambos sorrindo como se fossem parte de algum comercial americano. Lentamente, os dedos soltaram e a foto caiu virada para baixo.

Sua mala, já pronta, era pequena, embora ainda houvesse muito espaço a ser preenchido. Queria levar apenas o que não lembrava dela, e isso se resumia em algumas camisetas de banda, jeans e um iPod com rock dos anos 80: tudo o que havia comprado com seu dinheiro no tempo em que morava com seus pais.

Mudar-se para capital era sempre tudo o que queria, mas morar com ela, acabou sendo necessário para garantir sua estadia na cidade. Culpava-se por talvez ter acelerado as coisas, teria sido ela um monstro que ele mesmo havia criado? Por um instante, hesitou em colocar no bolso seu celular e carteira. Nunca passara por sua cabeça o quão resolvida uma pessoa deve estar para entrar na vida de alguém, não parecia para ele ser novidade quando esse pensamento passou pela sua cabeça. Tanta gente acha que sabe muito, mas pouco fazem o que sabem. Ele não era diferente, contudo, ela não mudaria. Não por ele, nem por ninguém. Na sua visão, estava certa, e sempre estaria.

Os gritos se aproximavam do quarto seguidos de ameaça, sua cabeça voltou a latejar. Não esperou ela entrar para atravessar a porta a passos largos.

Ao botar os pés para fora de casa, um vento quente bateu em seu rosto anunciando a chuva que estava por vir. Sentiu-se 5 anos mais jovem quando abriu sua mala e pela primeira vez depois de ter se mudado, não carregava um guarda-chuva que ela sempre escondia dentro da sua mochila. Um sofá no apartamento de um velho amigo o esperava, poderia ficar lá o tempo que quisesse, desde que ajudasse nas contas. Ele morava a alguns quarteirões de distância que dava uma boa caminhada pelo centro.

Passou em frente a uma antiga loja de conveniência onde costumava comprar cigarros para sua mãe. No lugar dela, havia uma cafeteria e se questionou por não saber quando havia sido construída. Foi caminhando cada vez mais devagar, até parar e dar meia volta, sem tirar os olhos da placa que saltava para metade da calçada. Era mais uma Starbucks com suas inúmeras opções de cafés caros, havia uma poltrona próxima a janela que mostrava o transito em fúria como um filme passando numa enorme tela sem volume. Dizem que não há local mais seguro para estar que no olho de um furacão, e olhando para fora, imerso nos acolchoados, ele sentia estar em um.
Sacou o iPod do seu bolso e deu play na primeira música que surgiu. Ao som de Whitesnake, decidiu pegar um café.

Here I go again on my own....
Going down to the only road I've ever known...


A terceira vez que a atendente falou, já irritada, fez com que ele tirasse os fones de ouvido. Seu modo de dar sermão, toda aquela agressividade por causa da sua falta de atenção era familiar. Se fechasse os olhos, imaginaria sua ex-namorada brigando, mais uma vez. Pegou seu café preto o mais rápido que pôde, cruzou reto pela sua confortável poltrona e foi embora prometendo não voltar mais lá. Sua língua ainda estava áspera, quase sem paladar, e quando levou o café até sua boca, mudou de ideia. Pela primeira vez em tanto tempo, preferiu deixar esfriar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário