Ela apareceu, simplesmente. Sem introduções ou apresentações, apenas estava lá, ao meu lado. Impaciente como eu, azarada como eu, esperando para pegar sua bebida. Não lembro como nem quando – infelizmente, eu estava bêbado – começamos a conversar. Seu cabelo era loiro ou branco? Ou será que era um lilás claro? Droga. E se não fosse pela bebida, provavelmente eu não seria tão sociável para falar com ela. Ou dançar.
Não lembro como viemos parar aqui embaixo, mas lembro bem do seu sorriso e do quão silenciosa ela era em um lugar tão barulhento. Ela não se preocupava em falar alto mesmo quando eu dizia que não tinha entendido. Tudo bem, eu gostava do seu rosto perto do meu e não queria que saísse de perto.
A cerveja pode tornar algumas pessoas violentas, ou até apagar a memória de quem bebe em excesso, mas diante de todas as desventuras que poderiam ocorrer naquela noite, a loteria do álcool tornou-me sociável, extrovertido, bem-humorado, alguém melhor do que eu sou. Se alguém como ela investia seu tempo para estar ao meu lado, alguma coisa eu estava fazendo certo, só não lembro o quê.
Nos beijamos, não uma vez, mas duas. A primeira vez aconteceu como ela havia surgido: simplesmente aconteceu. Um beijo longo, o universo unira duas bocas que se encaixavam, não era um beijo descoordenado, cada lábio buscava o que o outro oferecia, as línguas dançavam no ritmo da música, sem invadir a boca ou ficarem escondidas, os dentes nunca se chocaram. O beijo veio na mesma velocidade que se foi, como se nunca tivesse acontecido, exceto pelo meu coração agitado. Tinha a mesma sensação de quando um carro bate em algum objeto imóvel, fazendo com que o motorista salte para frente. Meu coração era um motorista bêbado e sem cinto de segurança.
Depois de um tempo que parecia ter sido uma eternidade, nos beijamos de novo, dessa vez, nossos olhos se encontraram e quebraram a tendência do corpo permanecer imóvel, era uma força externa que ambos foram atingidos. Ela pegou meus braços, e sem parar de me beijar, levou-me até a parede, onde nossos corpos se pressionavam intensamente. Mesmo no calor do momento, minha mente se permitia a questionar a sua veracidade, se em algum instante, eu não acordaria na minha cama - ou na dela - sonhando mais uma vez que o acaso teria me presenteado, quebrando toda a maré de azar que inunda minha vida desde que me conheço por gente. Mas era real, era excitante e eu não queria que acabasse.
O fim da noite chegou, e mais uma vez eu não havia colocado o cinto, nem estava preparado para se acidentar. Alguém a puxa pelo braço. Era sua amiga dizendo que estava na hora de ir. Ela desejou tudo de bom para mim, como se soubesse tudo da minha vida atualmente, mesmo não lembrando de ter lhe contado. E do mesmo jeito como nos conhecemos, ela se foi. Simplesmente se foi. Sem a promessa de se ver mais uma vez, nem que fosse para ficarmos horas na fila da cerveja em um lugar qualquer. Eu, com meu carro destruído e minha a cabeça atravessada no vidro, quase a beijar a parede em que eu havia batido, fiquei lá, tentando processar tudo o que havia acontecido e foi quando concluí: a falsa esperança de as coisas iriam melhorar, o breve sentimento de ser salvo do fundo do poço, era tudo uma piada. Eu era a piada. O azar havia pregado sua melhor peça em mim.
O fim da noite chegou, e mais uma vez eu não havia colocado o cinto, nem estava preparado para se acidentar. Alguém a puxa pelo braço. Era sua amiga dizendo que estava na hora de ir. Ela desejou tudo de bom para mim, como se soubesse tudo da minha vida atualmente, mesmo não lembrando de ter lhe contado. E do mesmo jeito como nos conhecemos, ela se foi. Simplesmente se foi. Sem a promessa de se ver mais uma vez, nem que fosse para ficarmos horas na fila da cerveja em um lugar qualquer. Eu, com meu carro destruído e minha a cabeça atravessada no vidro, quase a beijar a parede em que eu havia batido, fiquei lá, tentando processar tudo o que havia acontecido e foi quando concluí: a falsa esperança de as coisas iriam melhorar, o breve sentimento de ser salvo do fundo do poço, era tudo uma piada. Eu era a piada. O azar havia pregado sua melhor peça em mim.
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