O medo o impedia de escrever. Voltar a abraçar a caneta com os dedos sob o
caderno já deixava seu coração acelerado, seu medo era de despertar monstros
que por um tempo haviam deixado de importuná-lo. Pelo menos era o que ele
achava. Algumas madrugadas atrás, seus olhos saltavam para fora de sua face e
miravam a escrivaninha no canto do quarto. A mão tremia e suava frio, mas
sempre se virava para a parede, ficando de costas para tudo que pudesse
despertá-los mais uma vez.
Na quinta madrugada, estava tão quente que a mente alternava
entre sonhos e realidade. Havia desistido de dormir na quarta vez que seu sono
se fora, eram três da manhã e o canto do quarto nunca esteve tão escuro quanto
agora. Sem pensar duas vezes, levantou-se de sua cama, ligou o abajur e pegou a
primeira caneta e caderno que estavam a sua frente.
Por um momento, nada aconteceu.
Foi riscando a caneta pelo papel que sua confiança
aumentava, não tinha o que escrever, ele concluiu. “Ufa.”, escapou do seu
pensamento. Um pequeno sorriso surgiu em
seu rosto, seguido de uma gota de suor escorrendo pela sua testa, mas seu
alivio foi tão breve quanto uma chuva de verão. Como uma avalanche, os monstros
desceram da sua mente percorrendo o seu pescoço, depois o ombro e braço, mal
tinha espaço na caneta para sair todos de uma vez.
Seu braço se movia freneticamente sobre o caderno, as
palavras eram marcadas com tanta agressividade que as folhas embaixo ficavam
escritas com a mesma pressão. Ele não queria experimentar tais sentimentos, mas
era tão libertador retornar aos velhos hábitos como um alcoólatra experimentando
a bebida depois anos.
Depois de escrito, os monstros que não conseguiram sair
retornavam para sua mente, cabisbaixos, porém cheios de rancor, preparando-se
para a próxima investida, multiplicando-se como ratos. Era só uma questão de tempo para que ele
retornasse à sua escrivaninha porque, no final das contas, sempre gostou
disso.

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