Estava esperando ser chamado para a consulta, próximos a mim estava um homem com ar de executivo, vestido de terno um pouco folgado sobre seu corpo magro, e uma mulher, atendente de loja que vestia pequenas roupas esticadas sobre sua estrutura acima do peso. Ela gesticulava escandalosamente durante suas falas, ao que parecia, os “palavrões” faziam parte da sua gramática em qualquer ambiente. Desde o momento em que pisei na sala de espera, eu ouvia ela reclamar de não ter sido atendida ainda, mesmo sendo uma das primeiras a chegar. De “paciente”, não tinha nada, mantinha um monólogo diálogo com o executivo sentado à sua direita, quando o assunto chegava na parte engraçada, ela soltava um tapão na sua coxa, seguido de uma gargalhada. Mas a maior parte do que falava, implicava em como as pessoas estavam em seu caminho quando queria alguma coisa.
- Você não vai acreditar, quando eu estava fazendo a segunda prova para carteira de motorista, a “véia” não parava de me encarar, como se eu tivesse colando ou algo do tipo. E o pior é que só me cuidava..
…
- Aí quando ela começou a entregar os resultados do teste, adivinha quem foi a última a receber? Eu né. Quando entrei na sala, ela já me esperava com um sorrisinho amarelo, pronto pra dar a notícia de que eu não passei, aposto que por dentro, ela sentia prazer com a minha reprovação.
…
“Aposto que ela não queria te ver mais.” Minha mente dizia, quase que tentando falar por mim.
Uma jogada (sacana) do destino, fez eu estar no mesmo lugar que ela, fazendo os testes para a minha carteira de motorista e novamente me encontro com ela, ouvindo os mesmos choros que entregavam sua razão de ter vindo aqui, sua mania de perseguição.
Quando já não estava aguentando mais aquele estupro auditivo, fui salvo pela luz acendendo acima da porta para o corredor, ela se abriu, aparecendo o rosto da secretária, ela falou meu nome e eu levantei prontamente. A reação da “vítima” foi quase que instantânea.
- Não acredito nisso! Outra pessoa passa na minha frente!
- Senhora.. – diz a secretária, depois de suspirar – Já disse que devido o seu atraso, sua consulta seria feita ao final de todas as outras.
A (im)paciente cruza os braços e fecha a cara. Culpou o trânsito, o carro, o marido e Deus. Cochichou no ouvido do executivo enquanto olhava para mim e para secretária, mas como sua natureza nunca lhe permitiu ser discreta, ela dizia sobre um possível complô entre eu e a secretária, pois já havia me visto antes.
Entrando na sala do médico, cumprimento-o, solto o meu corpo sobre o divã e a consulta, finalmente, começa.
- Então, Pablo. Como está hoje?
- Bem, doutor.. – abraço meus joelhos contra o corpo – Acho que estou sendo perseguido por alguém..
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