O dia que eu acordei sem super-poderes. Sem
super-responsabilidades. O dia que eu fui uma pessoa comum, e foi ótimo.
O tédio e a rotina instalaram-se
alegremente, estava frio, mas onde havia sol, sentia-me aquecido. Fui à
faculdade como todos, depois trabalhei, e fiz alguns serviços no meu
apartamento. Não assumi responsabilidades que tinham a vida de uma pessoa
alheia em jogo. Muito menos arrisquei minha vida por elas. Senti falta de
alguns poderes, meus reflexos já não eram mais os mesmos, esbarrei em uma
velhinha e para a minha surpresa, ela continuou de pé, enquanto eu a olhava do
chão.
A minha visão já não era mais das melhores,
fazia tempo que eu não usava óculos, foi bom eu ter trazido eles. Os jornais
estampavam as mortes, os crimes não resolvidos e as facções sendo formadas.
Senti um pouco de inveja dos policiais que teriam estes casos para resolver, e
um pouco de revolta pelo fato de nunca resolverem. Por sorte, acabei me distraindo
quando passei por uma cafeteria que sempre quis ir, mas nunca tive tempo de
tomar um café lá, parecia ser bom. E foi muito bom.
O sol dormiu logo que as nuvens decidiram
chegar, o céu deixou de ser azul e transformou-se em gotas de chuva que caiam
sobre a minha cabeça, mas não foi o suficiente para deixar meus olhos
vermelhos, afinal de contas, nada mais me preocupava. Atrasei algumas tarefas
por não ter chegado a tempo no escritório, embora eu tenha recebido elogios que
me reconfortaram, quem sabe eu realmente tenha jeito para isso.
Eu me tornei vulnerável, os acontecimentos
cotidianos realmente poderiam afetar a minha vida, sem meus super-poderes, eu
não tinha a obrigação de fazer nada além da limitação humana, mas pela primeira
vez em muito tempo, senti minha identidade fazendo parte de algo, eu era tão
vulnerável como os outros, e eu podia compartilhar minha dor e minhas
conquistas com as pessoas.
No final do dia, o barulho de uma sirene
policial, vinha cortando o transito que estava estranhamente lento e calmo,
meus olhos acompanharam o trajeto da viatura até chegar em um banco, rodeado de
outros policiais. Dentro de mim, algo dizia para eu ir salvar o dia. Mas não
hoje, talvez nem amanhã, sou apenas um homem comum, com deveres comuns e uma
existência difícil de ser notada.



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