domingo, 23 de março de 2014

Super-Herói


O dia que eu acordei sem super-poderes. Sem super-responsabilidades. O dia que eu fui uma pessoa comum, e foi ótimo.


O tédio e a rotina instalaram-se alegremente, estava frio, mas onde havia sol, sentia-me aquecido. Fui à faculdade como todos, depois trabalhei, e fiz alguns serviços no meu apartamento. Não assumi responsabilidades que tinham a vida de uma pessoa alheia em jogo. Muito menos arrisquei minha vida por elas. Senti falta de alguns poderes, meus reflexos já não eram mais os mesmos, esbarrei em uma velhinha e para a minha surpresa, ela continuou de pé, enquanto eu a olhava do chão.

A minha visão já não era mais das melhores, fazia tempo que eu não usava óculos, foi bom eu ter trazido eles. Os jornais estampavam as mortes, os crimes não resolvidos e as facções sendo formadas. Senti um pouco de inveja dos policiais que teriam estes casos para resolver, e um pouco de revolta pelo fato de nunca resolverem. Por sorte, acabei me distraindo quando passei por uma cafeteria que sempre quis ir, mas nunca tive tempo de tomar um café lá, parecia ser bom. E foi muito bom.



O sol dormiu logo que as nuvens decidiram chegar, o céu deixou de ser azul e transformou-se em gotas de chuva que caiam sobre a minha cabeça, mas não foi o suficiente para deixar meus olhos vermelhos, afinal de contas, nada mais me preocupava. Atrasei algumas tarefas por não ter chegado a tempo no escritório, embora eu tenha recebido elogios que me reconfortaram, quem sabe eu realmente tenha jeito para isso.

Eu me tornei vulnerável, os acontecimentos cotidianos realmente poderiam afetar a minha vida, sem meus super-poderes, eu não tinha a obrigação de fazer nada além da limitação humana, mas pela primeira vez em muito tempo, senti minha identidade fazendo parte de algo, eu era tão vulnerável como os outros, e eu podia compartilhar minha dor e minhas conquistas com as pessoas.



No final do dia, o barulho de uma sirene policial, vinha cortando o transito que estava estranhamente lento e calmo, meus olhos acompanharam o trajeto da viatura até chegar em um banco, rodeado de outros policiais. Dentro de mim, algo dizia para eu ir salvar o dia. Mas não hoje, talvez nem amanhã, sou apenas um homem comum, com deveres comuns e uma existência difícil de ser notada. 

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