Roberto era um rapaz que tentou ser um pouco de tudo quando a vida jogou em sua cabeça um relógio biológico programado para contagem regressiva, até então, ele nunca havia se dado conta que a Morte um dia levaria sua alma, entrou em estado de nervos pois precisava arranjar um sentido em sua vida. Seu pais reclamavam sobre seu comportamento de quem não queria nada com nada, mas a falta de objetividade na sua vida era vista como algo positivo, que motivava-o experimentar de tudo mesmo não tendo certeza de nada, então seria difícil vê-lo do mesmo jeito depois de um ano, ou uma semana. Filho de uma argentina com brasileiro, nunca havia decidido se o rei do futebol era Pelé ou Maradona.
Quando novo, tinha dificuldades de relacionar-se com seus colegas do ensino fundamental, então entrara para o teatro. Conheceu todos os tipos de papéis de uma peça, mas interpretá-los sempre foi um grande desafio. Fingia, então, ser a personagem, a história não era mais uma simples apresentação, era a sua realidade. Chegou um momento que Roberto se perdera entre tantas peças, já não sabia se queria comédia ou drama. O relógio biológico estava prestes a cair na sua cabeça mais uma vez, até decidir largar tudo e entrar para faculdade. Durante a época de universitário, fingia ser ignorante entre seus colegas para ninguém pedir cola durante a prova, mas acabava sempre tirando uma das melhores notas. Não via problemas em estudar, mas não tinha certeza se queria fazer Medicina ou Ciências Econômicas, foi jogando “minha-mãe-mandou-eu-escolher-esse-daqui” que Roberto escolheu seu último curso depois de tantos outros cursados, Psicologia.
Na faculdade, afiliou-se a vários partidos, mas tinha dificuldades de permanecer em um, pois não sabia qual era a sua posição política. Uma vez disse que apoiava o sistema assistencialista do governo, seus colegas o acusaram de “esquerdista”, os mesmos colegas que já haviam chamado de “porco capitalista”, quando declarou que acreditava em um ensino privado. A pressão que era imposta a Roberto fez ele acreditar em uma sociedade livre de imposições e autoritarismo, acabou considerando-se um anarquista.
Roberto queria a mudança, admirava suas metamorfoses e sentia que experimentava a vida por diversos gostos e sabores, mas ainda não sabia o que era melhor: salgado ou docinho. Quem via ele de longe, imaginava múltiplas personalidades que nasciam e morriam em seu corpo magricelo e branco, e só Roberto sabia o sofrimento crescente que era em não encontrar sentido onde quer que procurasse, era uma corrida contra o tempo e ele mesmo.
Seu peito pesado de tristezas, fazia seus passos ficarem lentos ao percorrer pelas calçadas irregulares, procurou distração entre os edifícios e construções à sua volta, a porta aberta de um barzinho quase vazio, convidou Roberto para se sentar, quem sabe beber um pouco, ou até encher a cara. (Nunca havia tomado um porre.)
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