quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Perdão da Lua

Cansado, mas sem sono, aperta-se em desespero, esperando o momento que a vida dê o seu golpe final sob sua cabeça e jogue-o no chão sujo, por onde rasteja tudo aquilo que ele despreza, só para sentir o gosto de sua própria imundície. Cheia de prostitutas que são xingadas por motoristas jovens ao som de sertanejos universitário, a rua da sua casa nunca fora tão silenciosa, todo mundo aguardava o seu fim. Inclusive ele mesmo. 

Agora estando no mesmo nível que seus repúdios, era como um policial preso em uma cela com os criminosos que havia prendido. Entre chutes e ponta pés, o sangue da sua boca respingava sob o asfalto seco, seus dentes rolaram de encontro o meio fio e perderam-se entre os lixos que entopem os esgotos da rua, o que sobrou do seu corpo surrado, ricocheteava pelos pés violentos.

Quando o cansaço cessou a violência, ele perdeu o pouco de força que restava para cerrar seus olhos e eles fitaram o céu sob a sua cabeça. Estava diferente do comum, era um daqueles fenômenos que acontecem raramente, a lua nunca estivera tão majestosa. Suas pupilas dilataram-se, tentando absorver toda a beleza no meio daquele céu estrelado, uma lágrima caiu do seu olho, um suspiro frágil que saia dos pulmões feridos pedia perdão. Não era para seus inimigos, mas para a lua que lutava contra escuridão todos os dias e jamais havia se rendido para ela.

No meio daquela noite, a morte abraçou-lhe como sua mãe jamais fizera, as suas maldades nunca deram chance para ele se arrepender, acreditava que sua essência era podre e isso jamais mudaria. Mas a lua conseguiu. Talvez todas as suas escolhas estavam destinadas a leva-lo até aqui e só hoje, quando ela estivesse assim, ele seria capaz de encontrar o perdão e a paz que tanto queria.

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