Era um fim de tarde, terça-feira, hora do rush. A cara de
bunda que os motoristas carregavam da segunda-feira e do domingo já estava
prestes a desaparecer, caindo no entorpecimento da rotina semanal. Olhos de
peixe morto, movimentos mecânicos quase fazendo parte do próprio automóvel e
mãos próximas da buzina prontas para descarregar a raiva em qualquer um que demorasse
um pouco mais que o normal quando o semáforo estivesse aberto. Era uma bolha de
realidade coletiva, e parecia que nada seria capaz de estoura-la.
Parecia, apenas.
Uma moça não avançou com o carro, a luz que vinha acima era
verde, não demorou muito para a onda sonora ser descarregada sobre ela. As pessoas que caminhavam perdidas em seus
pensamentos cessaram seus passos ao direcionar os olhos para o que parecia ser
a causa de tanto problema. A moça era jovem, cabelos loiros e pele clara,
parecia petrificada enquanto tentava ligar o carro, mas sem sucesso. A fila de
carros já passava duas quadras, cruzamentos eram interrompidos pela ignorância
e impaciência dos motoristas mediante a situação.
Todos esperavam alguém tomar uma atitude, o fluxo estava
interrompido há minutos enquanto o cenário formava espectadores de todos os
lugares, mas ninguém pensava em interagir com ela. Poderia ficar horas, dias
daquele jeito, e ninguém faria algo, o cultura de esperar que os outros
tomassem alguma atitude era mais forte que qualquer iniciativa de alguém dentro
da bolha.
O que parecia não ter fim foi salvo pela vilã da história,
que não era má por natureza, estava apenas nervosa, pois era seu primeiro dia
habilitada. O transito seguiu, as pessoas seguiram, embora todos atrasados para
o seu compromisso. A bolha permanecia intacta. Parecia que alguma coisa era
capaz estoura-la.
Parecia, apenas.
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