terça-feira, 6 de maio de 2014

Parecia, apenas

Era um fim de tarde, terça-feira, hora do rush. A cara de bunda que os motoristas carregavam da segunda-feira e do domingo já estava prestes a desaparecer, caindo no entorpecimento da rotina semanal. Olhos de peixe morto, movimentos mecânicos quase fazendo parte do próprio automóvel e mãos próximas da buzina prontas para descarregar a raiva em qualquer um que demorasse um pouco mais que o normal quando o semáforo estivesse aberto. Era uma bolha de realidade coletiva, e parecia que nada seria capaz de estoura-la.

Parecia, apenas.

Uma moça não avançou com o carro, a luz que vinha acima era verde, não demorou muito para a onda sonora ser descarregada sobre ela.  As pessoas que caminhavam perdidas em seus pensamentos cessaram seus passos ao direcionar os olhos para o que parecia ser a causa de tanto problema. A moça era jovem, cabelos loiros e pele clara, parecia petrificada enquanto tentava ligar o carro, mas sem sucesso. A fila de carros já passava duas quadras, cruzamentos eram interrompidos pela ignorância e impaciência dos motoristas mediante a situação.

Todos esperavam alguém tomar uma atitude, o fluxo estava interrompido há minutos enquanto o cenário formava espectadores de todos os lugares, mas ninguém pensava em interagir com ela. Poderia ficar horas, dias daquele jeito, e ninguém faria algo, o cultura de esperar que os outros tomassem alguma atitude era mais forte que qualquer iniciativa de alguém dentro da bolha.

O que parecia não ter fim foi salvo pela vilã da história, que não era má por natureza, estava apenas nervosa, pois era seu primeiro dia habilitada. O transito seguiu, as pessoas seguiram, embora todos atrasados para o seu compromisso. A bolha permanecia intacta. Parecia que alguma coisa era capaz estoura-la.


Parecia, apenas.

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