terça-feira, 24 de junho de 2014

O mar

O mar sempre foi a minha casa, a terra sempre deu a falsa sensação de ser firme, concreta. Mas o mar, ele é sincero, não só reflete o céu, mas reflete a vida como ela é: alguns chegam apenas onde os pés alcançam. Outros, mais ousados, vão um pouco adiante, sem medo do desconhecido azul escuro que está abaixo. Mas além desses tipos, eu me encaixaria em uma terceira categoria, aqueles que deixam de desafiar o mar aberto, mais do que isso, nós abraçamos a escuridão.



 Ainda que eu falasse em "nós", não significa que interagimos, eu apenas vejo vultos que, assim como eu, percorrem a zona abissal. Isso faz parte da nossa identidade, escolhemos esse caminho por opção, do contrário, estaríamos na parte rasa. Não tenho direção para ir, não existe norte, nem sul, não há como nadar para algum lugar, apenas ser levado para nenhum lugar.

Não há felicidade, também. Nem tristeza, ou qualquer outra emoção. Qualquer pensamento que  surge, vai embora depressa, sendo levado pelas correntes marítimas. Eu já perdi a noção do tempo que estou por aqui, imerso. Mal lembro das pessoas que conviviam comigo, antes de chegar onde estou, elas parecem como sonhos de infância, fragmentos na minha memória...



Em meio a todo esse vazio preenchido por água, onde tudo é dissolvido pelo infinito, cresce uma dúvida, um ser.  Como um parasita, cresce cada vez mais. Às vezes, quando até o mar se torna silencioso, ele vem até o meu ouvido, com uma voz áspera  e pergunta, "Tem certeza de que está vivo?" E esconde-se o mais rápido possível para que nunca possa ser pego.

Mesmo só, carrego comigo este fardo, mas o mar nunca precisou mentir ou me iludir, a dúvida, o questionamento sobre a vida, permanecerá. Resta aguardar o dia da minha morte, quem sabe amanhã, quem sabe nunca, tanto faz. Eu estou em casa.

Um comentário:

  1. Experimente ir numa piscina num dia claro e água amena, mergulhe até o fundo, tape o nariz com a mão e vire (deitado no fundo) para cima, olhe o céu através da água. Infelizmente sem equipamentos não poderá ficar muito tempo, mas a sensação é muito boa, vivia fazendo isso. Legal o texto, as vezes sinto-me assim, apesar de nunca ter usado a representação pelo mar xD.

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