Depois de um tempo, a porta por onde havia entrado abriu-se novamente. Um homem de terno, por volta dos seus quarenta anos, com o cabelo começando a ficar grisalho e algumas rugas em seu rosto passava pela minha direita, olhando-me por trás das lentes escuras dos seus óculos. Sentou-se na outra cadeira e me analisou friamente seguido de um suspiro pesado.
— E então, já está pronto para conversar?
Levantei meus olhos em direção a ele e com o pouco de força que me restava, puxei o sangue grosso de minhas narinas e o cuspi em seu rosto pálido inexpressivo. “Não torne as coisas piores, Marcus.” Então levantou-se de sua cadeira para quebrar o que havia sobrado do meu nariz. Já havia deixado de sentir dor há tempos, apenas uma ferroada atravessou o formigamento que estava em meu rosto durante alguns segundos. Sem cuspes por um bom tempo, pensei.
“Veja bem, Marcus. Admitir seus erros, pecados, como preferir, ajudaria muito no processo, a entrevista faz parte da sua passagem por aqui, entenda que a morte não é mais o fim, pois você já está morto.” O homem pálido tirou um lenço do seu terno e calmamente limpou seu rosto, retornando ao seu lugar. Ele mantinha uma aura tranquila, só de olhar, poderia dizer que era um homem de viagens, ou de negócios, ou os dois.
Eu queria não acreditar, mas acho que isso estava além de todas as minhas crenças. Decidi que era melhor contar sobre a minha vida. “Tudo bem. Mas antes, quero saber o que, ou quem você é. Não tenho fé, quem dirá uma religião para seguir e nunca ouvi falar dessa… dessa situação que estou passando.”
“Justo.” O homem cruzou os braços. “Sou uma manifestação do que alguns costumam chamar de purgatório. Tenho vários nomes, mas se isso te deixa mais à vontade, pode me chamar de Hermes. Estou aqui para conduzi-lo de acordo com a sua vida na terra para a sua próxima jornada.” Fiquei fitando-o por um tempo. Jornada? Gostaria de tentar entender muita coisa, mas de nada adiantaria, não teria com quem compartilhar. Afinal de contas, estou morto.
— Bem, acho que não estaria aqui se eu não tivesse resistido ao assalto. Mas eu estava cansado disso, cansado de ser a vítima de tudo e de todos.
De repente, senti meus lábios umedecerem, passei a língua sobre eles e não sentia corte algum. Por alguma razão, sempre que eu contava sobre minha vida, principalmente revendo meus erros como um espectador da própria história, meu corpo se regenerava rapidamente.
— Parece que temos muita coisa para recapitular, não é, Marcus?

Marcus, caso tivesse ganhado o confronto com o bandido, estaria na cadeia, bem provável.
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